Escrito por 16:26 Cotidiano Vocacional, Notícias 2020

Das lembranças de infância ao “sim” de cada dia: Ir. Ronaldo Luzzi fala sobre sua vocação

Ir. Ronaldo Luzzi

Ainda pequeno, na escola, nos tempos do Ensino Fundamental 1. Foi ali que começou a se revelar a vocação de um Irmão marista, que hoje em dia coordena Pastoral e atua diretamente junto aos jovens de Jaraguá do Sul (SC). “Mal sabia eu que aqueles sinais que vinha colhendo no meu dia a dia viriam a ser o insumo do meu acompanhamento vocacional mais tarde”, conta Ir. Ronaldo Luzzi. 

O começo

“Minha vida era como a de qualquer menino de uma pequena cidade do interior. Calma e preenchida de pequenas aventuras aqui e acolá, sem muito mais que alguns arranhões e torções entre corridas e peraltices próprias de criança. O grande fator decisivo, eu acredito, foi o constante acompanhamento por parte de alguns Irmãos que, assim que perceberam minhas inclinações vocacionais, não mediram esforços para me ajudarem a discernir minha vocação com coragem e audácia”.

Chamado pessoal e irrepetível

“A vocação é um chamado pessoal. Apenas a pessoa consegue ouvir esse chamado e Deus faz a cada um de uma forma. Não chama duas pessoas da mesma forma, pois Deus respeita nossa unicidade como pessoa humana. Desta forma, eu digo que meu chamado foi único e irrepetível. Aliás, receio Deus estar continuamente me chamando… dia após dia e incessantemente pedindo de mim fidelidade e seguimento. Vocação nenhuma se sustenta senão com interpelações diárias e consequentes aceitações por parte nossa. Nosso sim é diário”.

Vida em comunidade

“A vida Marista não é estanque. Ela precisa ser nutrida por todos os momentos de partilha e de convivência com outras Maristas, com outras pessoas, com experiências vitais que vão dando cor e sabor ao dia a dia de nossa existência. Nessa perspectiva, é sempre muito importante a relação de fraternidade que temos entre nós. Marcelino nos cria como irmãos e, não à toa, nos lega essa herança fraternal e esse grande sinal de contradição que é próprio da vida religiosa consagrada. Ou seja, é na fraternidade de nossas relações que construímos nossa maneira de ser como Maristas e crescemos nela. Não fossem nossos encontros, olhos nos olhos, não seríamos quem somos. Nossa vocação comum de Maristas supõe o encontro e a entreajuda na fraternidade”.

Vocação

“O mundo gira dilacerado a própria volta. Nosso testemunho de fidelidade a nossa vocação e ao nosso carisma é o maior sinal de vitória na fluidez caótica a qual fomos lançados nesse século. As pessoas andam por aí se trombando em angústias e desamores, a fidelidade ao nosso estado de vida nos garante felicidade real, não a ilusão efêmera de algo que sabemos que não nos completa. A mensagem que posso deixar é essa: na Vida Consagrada precisamos nos esvaziar das coisas que passam para nos preenchermos das coisas que não passam. Não é tarefa fácil, por isso somos tão poucos. É tarefa difícil, envolve entrega e sacrifício. Muitos são chamados… Poucos permanecem fiéis ao chamado. Coragem, pois, em anunciar as coisas do alto, que não passam”. 

Relato pessoal

Confira, a seguir, o relato completo escrito pelo Ir. Ronaldo Luzzi sobre lembranças de infância e seu despertar vocacional:

Ir. Ronaldo

De um prelúdio inaudível nos acordes do tempo, um recorte

Tudo começou da forma mais simples possível; e talvez essa tenha sido a nuança determinante para certo sucesso em tal empreitada. 

Eu recordo os quadros; eram dois. E também o túmulo, único.

Ainda no chamado primário, Escola Municipal Josafat Kimita. Eles sempre nos olhavam, durante toda a aula. No centro sabíamos, era Jesus. 

Mas e aquele simpático casal que o ladeavam? 

 “Marcelino Champagnat e Maria, a Boa Mãe”. A professora explicava. 

 “Devemos rezar para Champagnat nos ajudar a irmos bem na escola. Devemos rezar para a Boa Mãe nos cuidar durante a aula”. 

E a explicação era suficiente, simplesmente.

Com o tempo fomos compreendendo; entendemos os porquês daquilo tudo. 

Mas ainda restava a questão do túmulo… 

E foi preciso certo tempo para entendermos o porquê de irmos todo ano ao cemitério visitar certo túmulo, de certo senhor, que tinha o mesmo nome que o da nossa pequena escola: Ir. Josaft Kimita. 

E então tudo foi fazendo mais sentido, tudo foi ficando mais claro. E, hoje, eu sei que desde sempre o Marista fez parte da minha vida, da minha história. E tudo o que aconteceu na sequência pode ser simples consequência desse pequeno e eficaz prelúdio da curta canção de uns “porquês aqui e ali”, soltos no enredo dançante da história de uma infância qualquer.

Depois de certa idade todos acabam sabendo. 

A vida, por curta que ainda seja nesse tempo, trata de nos ensinar: que todos estudam na escola dos Irmãos em Itapejara (e não adianta dizer que aqueles que estudaram/estudam na Carlos Gomes da Barra Grande não são Maristas, eles sempre participavam da Semana Champagnat conosco, afinal). 

A escola Marista em uma pequena cidade é um marco. Os Irmãos eram autoridades. As pessoas falavam da escola como sendo um privilégio para o município. E assim nós entendíamos toda a questão Marista/Itapejara: algo místico! 

Suficientemente importante para todos respeitarem com máxima reverência.

Sim, minha vida Marista começa ainda antes de eu saber o que eu era! Bem, talvez eu ainda não saiba direito, mas esse é outro assunto.

Fato é que jogávamos tênis de mesa (que na época ainda era “ping-pong”) no espaço que é próprio para isso na escola (e que ainda deve ser, inclusive). E alguns minutos antes do início das aulas, de um portão lateral que não sabíamos onde ia dar, saía um senhor com sua proeminente e característica barriga, cheirando a café forte e mortadela e só sorrisos; às vezes jogava um ou dois pontos conosco, e ia, mexendo com todos quanto fosse possível, até a sala dos professores.

Ir. Everaldo era o nome dele. E a nós dava aulas de Ensino Religioso; lembro das leituras, pois ele tinha um saco de livrinhos dos mais diversos, mas sempre com historinhas edificantes! Uma vez por mês, em média, líamos a aula toda. E também as músicas! Nunca ríamos tanto em uma aula na escola como nas aulas de música do Ir. Everaldo. Suas caras e bocas ainda devem ser lembradas nos corredores, com certeza.

Em 1997, foi construído o tal do Centro Marista e lá aconteciam muitos encontros, com as mais diversas destinações possíveis. Eu nunca me interessei… 

Em um belo e simples dia, eis que aparece lá em casa o professor Jaime – queria falar com minha mãe –, para que ela me mandasse para um encontro no Centro Marista, “pois eu iria gostar”, ousava afirmar o professor. 

Claro que me neguei, afinal, como poderia ele afirmar com tamanha veemência um futuro a curto prazo tão promissor?! Mas ele insistia, e não foi nada difícil encontrar aprovação nas intenções de minha mãe. E a isso tudo se colocou um ponto final, curto e simples: “Ele vai!” – Enfática, disse minha querida mãe. 

O que me restou?! 

Ir!

E aí se inicia um novo ciclo, um novo caminhar, em uma estrada que inspirava temores, incertezas, inseguranças…

Mas Deus parece escrever por essas linhas mesmo, sem pedir permissão e sem dar muitas explicações; parece querer nos dizer, mesmo não usando modo inteligível algum para isso:

– “Confie, coloque-se a caminho! Aceite o convite do professor! Há um plano, há uma proposta”.

Desde aquele primeiro encontro, muita coisa aconteceu. Muitas portas foram abertas; sabe Deus quantas foram fechadas! Pessoas surgiram e, com a mesma rapidez, desapareceram… Família, Pastoralistas, Professores, Irmãos… pois a caminhada não se faz sozinho. É preciso o amparo de todas essas pessoas, e mesmo assim, em alguns momentos, vai parecer que estamos sozinhos, a ponto de cair. Mas não, nunca estamos.

Lembro das pescarias! Foram muitas… Dos animais, pois Ir. Everaldo mantinha um verdadeiro zoológico em casa. De todas as experiências, de todas as pessoas. Um processo vocacional cheio de nomes, cheio de rostos, de sorrisos… ao longo da caminhada. Era a forma carinhosa de Deus dizer que ele sempre soube, que ele sempre quis, e agora eu tinha percebido, permitido.

Depois chegou Ir. Reni, Ir. Murilo… E ainda hoje, continuam chegando tantos, muitos mais. 

Quantos foram, quantos ficaram. 

O que eu fui! O que eu sou!

Hoje sou eu a chegar, a convidar, a insistir…

A vida é simples passo dado, é simples quadro na parede, túmulo de cemitério. Prelúdio de uma canção muito maior, que somos convidados a ensaiar desde sempre, mesmo sem saber no que vai dar ou o que cantar.

Quem rege o cacofônico coral de nossa existência usa de uma maestria tal que é capaz de passarmos uma vida em silêncios destoantes e chegarmos ao fim dela com uma bela sinfonia nos ouvidos, sem nunca nos termos percebido cantores.

A isso tudo, chamo vocação.

Ir. Ronaldo Luzzi

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